A barreira dos Exames Nacionais
- Beatriz Marvão
- 28 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 7 de jul. de 2021
Todos os alunos após X anos de escolaridade obrigatória, são sujeitos a uma prova, objeto supremo de avaliação, que, à voz do que nos é dito, é para o fim de nos igualar ao resto dos alunos portugueses e é condição indispensável à nossa entrada no ensino superior.
Se o exame serve como objeto para igualar, até pode ser possível, mas só acontecerá, na sua melhor versão, se até ao dia do exame estivermos já em pé de igualdade.
Os exames numa tentativa de igualar os estudantes acabam por vincar e acentuar ainda mais as desigualdades sociais entre estudantes.
Um estudante que esteja numa turma com excesso de alunos, com falta de professores, numa escola sem as condições mínimas para conseguir aprender, irá fazer o mesmo exame que um aluno socioeconomicamente mais elevado, que durante a sua escolaridade sempre teve boas condições para aprender e estudar, e mesmo tendo a mesma motivação e vontade em aprender não creio que tenham caminhos idênticos pela frente, um terá de escalar mais que o outro. O exame é, para uma grande porção de alunos, uma barreira para o seu futuro.
Perante a situação pandémica, estas questões e desigualdades ainda se vieram mais vincar e agravar em alguns casos. Por exemplo, nos casos de escolas que não conseguiram assegurar sempre o bom funcionamento das aulas online ou mesmos dos próprios alunos que, ou tinham pouco acesso à internet facilitada, ou tinham em falta um local de estudo em casa, ou até por terem de partilhar o computador com outros membros da família, isto tudo desde o início da pandemia em Portugal. Serem estes mesmos alunos levados ao mesmo exame está à vista de todos que a balança não está minimamente equilibrada.
Para além disso, o exame nacional coloca em causa 2/3 anos da nossa escolaridade, do nosso trabalho e dedicação em cerca de poucas horas. Pode acontecer não avaliar, efetivamente, o nosso percurso e colocar numa mera percentagem apenas o nosso estado no dia do exame. Uma grande parte dos estudantes sofre de doenças como ansiedade e colocar tanto peso numa prova como esta não ajuda em nada, muito menos à sua prestação que influenciará, em muito, a sua entrada no ensino superior.
A avaliação tem de ser construída ao longo dos anos do secundário, uma avaliação contínua, baseada no aluno e nas suas capacidades demonstradas ao longo de todos e dos vários critérios de avaliação. Deve ser uma nota dada pelo professor, aquele que conhece melhor o nosso percurso, e não por um avaliador de exame, que é limitado a aferir se demos as mesmas respostas que todos os outros estudantes portugueses.
O exame sendo também uma condicionante para a entrada na faculdade, e como referido a cima, dá vantagem a uns e atrasa outros, acabando por haver uma exclusão de alunos e uma elitização do ensino superior.
É preciso uma avaliação justa e equitativa, não deixando alunos para trás.
O exame para além de ser regido por critérios muito rigoroso e restritivos, impede o estímulo criativo, a capacidade crítica e o cunho pessoal dos jovens, visto que somos todos programados para dar as mesmas respostas às mesmas perguntas, por vezes com medo que o avaliador discorde do que escrevemos e tenhamos de ser o mais neutros possível.
A anulação dos exames não é um fim em si próprio, há muito mais caminho para a frente no que toca à mudança do sistema do ensino português.
Uma realidade é que o exame evita grandes inflações de notas, mas acredito que, após a abolição, podem ser desenvolvidos e melhorados métodos para evitar essa mesma questão e deixar de tentar alinhar os alunos, deixando assim cair tantos outros.
Todos nós precisamos de passar o muro e o exame é a escada, para alguns é rolante enquanto para muitos não tem meia-dúzia de degraus.
Artigo: Beatriz Marvão
Revisão: Dinis Marques

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